segunda-feira, 6 de junho de 2011

The same water - a different wave

The same water - a different wave
What matters is that it is a wave
What matters is that the wave will return
What matters is that it will always be different
What matters most of all: however different the returning wave, it will always return as a wave of the sea.
What is a wave? Composition and muscle. The same goes for lyric poetry.

(Marina Tsvetaeva )

O loito de Alice

• O loito de Alice
A tarde, dolente, caía
As horas rolavam rumo ao sáfiro horizonte,
Eólio dormia e os seus núncios nem buliam.

O trigo, fulvo, preguiçava na doce modorra
Do entardecer,
Pávido da estática circunstância da Natureza.

Na ribeira, as pedras chiavam baixinho
E a água, pedia vénia para continuar.
Mais perto, o malmequer escondia a gema do seu ser,
Para não contrastar com o magenta da noite
Que já se mostrava.

Nada mexia, nada se ouvia,
Pois junto ao pélago dos narcisos
Pranteava-se o loito de Alice
Que em alabastrino trajo jazia
E o álacre viço do verde clareava.

As mãos, ainda cheias de ardor
A Eros ofertava.

CLF

Se a Vida me consentir

Vou embriagar-me de ti
Até minha razão desvairar.
Se a vida me consentir,
E cupido não me impedir,
De tanto amor cuidar,
Vou roubar as estrelas para te dar,
Pear o mar para te refrescar,
Mover apriscos globos esquecidos,
Dobrar as pedras ao teu Alvedrio,
Açoutar os ventos que te aborreçam,
Queimar o sol que te assole,
Cometer à lua que te esteja sempre plena,
Avocar os Deuses para te embalar,
Esgotar milhões em jóias coloridas,
Que hão-de enfeitar-te mil vidas,
Levar-te ao Olimpo de terras
Nunca imaginadas,
Onde as flores têm cores concentradas,
E as filo melas são eternas.
Vou entronizar-te na glória única
De seres o génio ímpar,
Que causa o revérbero das ledas manhãs,
E o prásio matiz da esperança.
E tudo isto eu farei porque
O amor nunca se contenta
Tudo perdoa, tudo consente,
E morre, constante, e leal,
Ainda que Judas seja o dilecto ideal.

“Se a vida me consentir” CLF 2002

Instante

Instante

Pudesse eu parar este momento
em que estás a olhar-me assim.
tomar a tua mão na minha,
e sentir o teu corpo em mim.

Pudessem as nuvens não mais voltar
E o azul do meu contentamento celebrar.

Pudesse o teu pensamento ser só de mim feito
E saber que a ninguém o vais dar.

Pudessem os dias não mais passar,
A terra echar de girar,
As quadras cessar de trocar
E a alma de meu riso ficar.

Pudesse eu este instante com cinzel gravar,
e o eco de Tristão e Isolda imortalizar.

Pudessem os teus olhos só os meus encontrar
E só neles morar
Para o momento parar.

CLF

Sabores

SABORES


Se um dia sonhares
Sonhos de mil cores
Foi porque os nossos olhares
Juntaram sabores.

Sabores antigos e doces
Das tuas mão amadas;
Ah, se o mundo nunca mais fosse
Senão margaridas encantadas!

Seguimos as vozes do vento e do mar,
Perdemos o pão e a escada do ar,
Caímos no vórtice dos nossos beijos,
Em trovas ardentes de desejos.

E desde então, sou porque tu és
E desde então, sou, somos, porque és
E desde então, serei, seremos, porto lés
E desde então, fico, ficamos, nas marés.

CLF

VÁCUO

• VÁCUO
Quiseste-me, quando quisesses.

Pensei que chegaras a um porto,

Cujo movimento era ali estares.

E enquanto estiveste

Nada disseste, nem me buscaste.

Já não me importo

Até com o que amo ou creio amar.

Nada me resta

Da tua festa.

Esperei ardor, calor, amor,

Mas tiveste a emoção por vivida.

E tens-me indiferente ao que sou

Rumo além, já traçado,

E a tua ausência desse porto,

Fez-me de pedra e cal concebida.

CLF

VÁCUO

• VÁCUO
Quiseste-me, quando quisesses.

Pensei que chegaras a um porto,

Cujo movimento era ali estares.

E enquanto estiveste

Nada disseste, nem me buscaste.

Já não me importo

Até com o que amo ou creio amar.

Nada me resta

Da tua festa.

Esperei ardor, calor, amor,

Mas tiveste a emoção por vivida.

E tens-me indiferente ao que sou

Rumo além, já traçado,

E a tua ausência desse porto,

Fez-me de pedra e cal concebida.

CLF